A gagueira é considerada como distúrbio ou transtorno de fluência que geralmente surge na infância, no período entre os dois e os cinco anos de idade [1].Assim como existem muitas teorias sobre sua natureza, assim se multiplicam as suas definições. Em termos de sua manifestação, ela pode ser descrita como um transtorno do ritmo, ou da fluência, ou ainda, do padrão temporal da fala. Nela se observa que o fluxo natural do som da fala acha-se prejudicado [2]. Os sintomas principais incluem:
- Prolongamento de sons (audíveis ou silenciosos). Repetição de sons, sílabas ou partes de palavras.
- Bloqueios de sons (pausas tensas). Substituições de palavras e reformulações de frases.
- Uso excessivo de marcadores discursivos (“tipo”, “é”, “então”, etc.). Modificações do tom de voz.
- Modificações da respiração (fazer inspirações profundas antes de falar ou falar até acabar o ar).
A esses sintomas, podem se associar outros sintomas, não relacionados propriamente à fala: os sintomas secundários – também denominados de comportamentos associados. Entre eles encontram-se: aumento de tensão física (como por exemplo: tremores de lábios ou de mandíbulas); presença de emoções negativas associadas à fala (medo vergonha ou frustração); hábitos persistentes e incontroláveis associados ao ato de falar (“tiques”); contorções faciais; movimentos de braços, de cabeça, ou de mandíbula, entre outros [2].
A porcentagem da população que gaguejou em algum momento de sua vida é de 4%. No entanto, após a puberdade tal número sobe para 5%. A partir daí, tende a declinar em função do curso da gagueira. Após a puberdade encontra-se ao redor de 0,8% podendo chegar a 0,5%. Sua prevalência é menor do que sua incidência porque a remissão espontânea do quadro costuma ocorrer antes da adolescência.
Há três vezes mais homens do que mulheres, entre a população que gagueja. Um terço ou metade dos indivíduos que gaguejam referem que possuem um membro de sua família que gagueja ou que já gaguejou.
A gagueira do desenvolvimento surge antes da puberdade, geralmente entre dois e cinco anos de idade, sem causa aparente, no período de aquisição da linguagem.
Quando está adquirindo a linguagem, a criança encontra algumas dificuldades em lidar com a língua (selecionar palavras para se expressar, necessidade de relatar algo em um pequeno espaço de tempo, etc.) apresentando conseqüentes repetições, prolongamentos ou hesitações [3]. Este período pode ser chamado de “disfluência normal”, já que é uma época em que a criança está adquirindo a língua, construindo seus saberes lingüísticos. A disfluência, portanto, ocorre nos momentos de construção, de elaboração e de instabilidade lingüística [5].
Como ainda não existe nenhum modo de se prever quais das crianças que se encontram nesta fase persistirão gaguejando, é de fundamental importância o trabalho de prevenção, logo após o surgimento dos primeiros sintomas [2]. “A gagueira não está na boca da criança, mas no ouvido dos pais. É a eles que se deve dirigir a atenção, orientando e ouvindo suas dificuldades” [6].
- Orientações aos pais: Com relação à dinâmica familiar, alguns estudiosos referem que ao chamarem a atenção da criança para a sua fala, os pais estariam provocando a causa imediata da gagueira, fazendo com que hesitações comuns presentes na fase de aquisição de linguagem, se transformassem em gagueira.
“Na gagueira, ao contrário da satisfação, há o anti prazer, a constatação, logo na infância, de inabilidade para a linguagem, do silêncio imposto pelo interlocutor (pais), o que leva a criança a perceber-se como um sujeito que apresenta dificuldades na elaboração do discurso” [7]. Sete conselhos para ajudar a criança que gagueja [2]:
Fale com a criança sem pressa, com pausas freqüentes. Quando seu filho terminar de falar, espere alguns segundos antes de você começar a falar. A fala lenta e relaxada é muito mais eficaz do que criticar ou dizer: “fale devagar”, “repita mais devagar”. Reduza o número de perguntas ao seu filho. As crianças falam mais livremente ao expressar suas próprias idéias ao invés de responder às perguntas dos adultos. Ao invés de fazer perguntas, faça comentários sobre o que seu filho disse, mostrando-lhe que você está prestando atenção.
Utilize expressões faciais e linguagem corporal para demonstrar ao seu filho que você está mais atento ao conteúdo da mensagem do que com sua forma de falar. Reserve alguns minutos, todos os dias, para dar atenção somente ao seu filho. Deixe que ele escolha o que gostaria de fazer. Permita que ele dirija as atividades, decidindo se quer falar ou não. Quando você falar, utilize uma fala lenta, tranqüila, relaxada e com pausas freqüentes. Este momento calmo pode aumentar a autoconfiança da criança pequena, porque ela vai saber que o pai ou a mãe aprecia a sua companhia. Conforme a criança se torna mais velha, pode ser um momento em que se sente confortável para falar de seus sentimentos e experiências com o pai ou a mãe.
Auxilie todos os membros da família a aprender a escutar e esperar sua vez de falar. Para as crianças, principalmente as que gaguejam, é mais fácil falar quando há poucas interrupções e quando contam com a atenção do ouvinte. Observe como você se relaciona com seu filho. Sempre que possível, demonstre que você está prestando atenção ao que ele está falando e ele pode utilizar o tempo que precisar para falar. Procure evitar a crítica, o falar rápido, as interrupções e as perguntas freqüentes.
Acima de tudo, faça seu filho saber que você o aceita como ele é. O mais importante será o seu apoio ao seu filho, quer ele gagueje ou não.
Também chamada de gagueira neurogênica, ocorre após um dano cerebral bem definido, ocasionado por um derrame, uma hemorragia intracerebral ou um traumatismo craniano. É um fenômeno raro que tem sido observado após lesões em uma grande variedade de áreas cerebrais [4].
Até hoje ainda não se estabeleceu a etiologia da gagueira. Atualmente a gagueira é considerada um distúrbio causado por diversos fatores (psicológicos, neurológicos, genéticos). Do ponto de vista orgânico, alguns estudiosos acreditam que a gagueira ocorre devido a anormalidades no funcionamento cerebral e que essas anormalidades podem ser hereditárias.
Do ponto de vista socioemocional e psicanalítico, a gagueira ocorreria a partir das relações de comunicação vividas, em que o padrão de fala de um sujeito é vista como impróprio o que leva o interlocutor a não interpretar esse sujeito que “fala errado”. Assim sendo, o sujeito gago será calado e frustrado, sempre que há a possibilidade de falar. Conseqüentemente o sujeito que gagueja, para deixar essa marca de “mal falante”, ficará muito atento à sua fala, o que não é possível, já que a nossa fala é espontânea, ou seja, não nos preocupamos como iremos falar algo, mas sim, com o que iremos falar (a mensagem que pretendemos passar).
Na sociedade existe a ideologia do bem falar, ou seja, acredita-se que a fluência normal é absoluta e que não contêm trechos disfluentes (gaguejados). Isso favorece as reações de não aceitação desses trechos, que passam a ser interpretados como problemáticos. Conseqüentemente, irá aumentar as reações de não aceitação bem como a tentativa de controlar a fala (que deve ser espontânea e não controlada), aprisionando o discurso do falante. Já quando a situação de comunicação não lhes trouxer nenhuma preocupação com a imagem de si, não há antecipação da gagueira e conseqüentemente a fluência irá ocorrer com maior freqüência. “O tratamento direciona-se para a ressignificação da experiência de fala e modificação dessa imagem de falante. Esse processo desenvolve-se por meio de duas vertentes que se articulam: uma pautada no diálogo paciente / terapeuta e a outra na sensibilização do corpo do paciente” [8].
Então disse Moisés ao Senhor: “Ah! Senhor! Eu nunca fui eloqüente, nem outrora nem depois que falaste ao teu servo; pois sou pesado de boca e de língua.” Ex, 4:10. Moisés gaguejava??? Muitos dizem que não só Moisés, mas também outros grandes nomes da história apresentavam gagueira:
Aristóteles, Robert Boyle, Lewis Carrol, Rei Carlos I, Charles Darwin, Demóstenes, Scatman John, Rei Luís II, Marylin Monroe, Imperador Napoleão 1º, Isaac Newton, Theodore Roosevelt, Virgílio.
- [1] Instituto Brasileiro de Fluência.
- [2] RIBEIRO, M. I., “Gagueira”, São Paulo, 2003.
- [3] AZEVEDO, G. P. N., “Gagueira: a estrutura da língua desestruturando o discurso”, 2003.
- [4] Associação Brasileira de Gagueira
- [5] KELLY, R. E. O. G.,“Fluir ou disfluir: eis a questão! Uma discussão sobre a gagueira e a psicanálise”, São Paulo, 2002.
- [6] JOHNSON, W., “An open letter to the motter of a stuttering child”, New York, 1941.
- [7] CUNHA, M. C., “Fonoaudiologia e Psicanálise: uma reflexão sobre gagueira e o inconsciente”, São Paulo, 1996.
- [8] Gagueira – Novos Paradigmas